A comunidade de Destiny 3 se mobilizou no Change.org e já reuniu mais assinaturas do que o total de jogadores que Marathon atingiu desde o lançamento.

O momento que ninguém esperava ver
Em 21 de maio de 2026, a Bungie publicou um comunicado que pegou boa parte da comunidade de surpresa. Após quase doze anos de atualizações regulares, Destiny 2 receberá sua última grande atualização em 9 de junho de 2026 e, a partir daí, entrará em modo de preservação, sem novos conteúdos ou ciclos de expansão. O jogo permanecerá disponível para jogar, mas o desenvolvimento ativo chega ao fim.
A reação não demorou. Dentro de poucos dias, uma petição criada pela jogadora Haley Casto no Change.org, endereçada diretamente à Sony, ultrapassou a marca de 170 mil assinaturas, com o número ainda em crescimento no momento em que este artigo é publicado. O objetivo da mobilização é direto: pedir que a empresa aprove o desenvolvimento de Destiny 3 e não deixe a franquia morrer sem uma continuação digna.
O que tornou a situação ainda mais emblemática foi a comparação imediata que a comunidade fez. Marathon, o novo shooter de extração da Bungie lançado em março de 2026 e aposta central do estúdio para substituir Destiny 2, atingiu um pico entre 130 mil e 150 mil jogadores na semana de estreia nas plataformas combinadas. A petição por Destiny 3, portanto, já reúne mais assinaturas do que Marathon alguma vez teve jogadores ativos simultaneamente. Um dado que diz muito sobre onde está, de fato, a audiência da Bungie.
O contexto por trás da petição: crise, demissões e apostas arriscadas
Para entender o peso do movimento dos fãs, é preciso olhar para o cenário financeiro e estratégico que a Bungie enfrenta. A Sony adquiriu o estúdio em 2022 por 3,6 bilhões de dólares, uma das maiores aquisições da indústria de jogos daquele período. Quatro anos depois, o retorno sobre esse investimento está longe do esperado.
No ano fiscal encerrado em março de 2026, a Sony registrou uma perda de 765 milhões de dólares em ativos relacionados à Bungie. O prejuízo veio em duas fases: primeiro, uma baixa de aproximadamente 204 milhões de dólares no segundo trimestre, associada ao desempenho abaixo do esperado de Destiny 2. Depois, uma segunda e mais pesada baixa de 565 milhões de dólares no quarto trimestre, coincidindo exatamente com o período de lançamento de Marathon.
Lin Tao, diretor financeiro da Sony, não deixou espaço para interpretações ambíguas ao comentar o resultado: “Os lucros do portfólio de títulos da Bungie não atingiram nossas expectativas, então revisamos para baixo nosso plano de negócios e baixamos o valor dos ativos fixos relacionados à Bungie”. Ainda assim, a empresa sinalizou que continuará apoiando Marathon na tentativa de expandir sua base de jogadores.
Paralelamente, reportagens do jornalista Jason Schreier, da Bloomberg, confirmaram que uma onda de demissões significativa está prevista para o estúdio nos próximos dias, com a equipe que trabalhava em Destiny 2 sem um projeto aprovado para absorvê-la. A Bungie passa pelo momento mais delicado desde sua fundação.
Marathon: o plano que não decolou como esperado
Marathon chegou ao mercado em março de 2026 como a grande aposta da Bungie no segmento de extraction shooters, um gênero que ganhou popularidade com títulos como Escape from Tarkov e Hunt: Showdown. O jogo registrou 88.337 jogadores simultâneos na Steam no dia de lançamento, número já considerado abaixo das expectativas para um título de um estúdio desse porte.
O declínio foi rápido. Segundo dados do SteamDB, Marathon perdeu mais de 85% da sua base de jogadores em poucas semanas após o lançamento, caindo para menos de 15% do pico inicial. A divisão entre PC e consoles é de aproximadamente dois para um, o que indica que o novo título não conseguiu compensar o abandono da base de Destiny nem no segmento mais expressivo.
O padrão é preocupante, mas não totalmente surpreendente. O beta gratuito de Marathon, realizado em fevereiro de 2026, chegou a 143 mil jogadores, número superior ao pico de lançamento oficial. Isso sugere que muitos testaram o jogo por curiosidade, mas não encontraram motivo suficiente para continuar.

O que a petição realmente representa
Petições online raramente resultam em mudanças diretas de decisão em grandes corporações. Esse ponto precisa ser dito com honestidade. A indústria de jogos tem um histórico longo de mobilizações que geraram barulho considerável nas redes sociais sem converter em ação concreta por parte dos estúdios.
Mas a petição por Destiny 3 carrega um significado que vai além do número de assinaturas. Ela é um indicador qualitativo claro: existe uma base de jogadores ativa, fiel e disposta a consumir conteúdo da franquia Destiny, e essa base não está sendo atendida pelo produto atual da Bungie.
O texto da petição é objetivo: “A franquia Destiny cativou milhões de jogadores em todo o mundo com o seu universo imersivo, jogabilidade emocionante e forte sentido de comunidade. No entanto, com o fim das atualizações para Destiny 2, é tempo de dar o próximo passo e manter esta adorada série a prosperar. Este passo é o desenvolvimento de Destiny 3.”
Além das assinaturas, o grupo responsável pela mobilização foi além e organizou um ato simbólico: está incentivando os jogadores a retornarem aos servidores de Destiny 2 no dia 9 de junho, data da última atualização, para demonstrar à Sony que a audiência ainda existe e está engajada. É uma tentativa de transformar um número numa tela em algo visível e mensurável dentro do próprio jogo.
Por que a Sony e a Bungie estão de costas para Destiny 3
A resposta pública da Bungie sobre o futuro da franquia foi consistente em um ponto: o foco total está em Marathon. Internamente, segundo o que o jornalismo especializado apurou, não há um projeto de Destiny 3 aprovado ou em desenvolvimento ativo. A equipe responsável pela franquia está em situação de incerteza, com demissões previstas e sem um horizonte claro.
Do ponto de vista da Sony, a decisão tem uma lógica financeira dolorosa, mas compreensível. Destiny 2 não estava mais gerando o retorno esperado, a base de jogadores encolheu consistentemente após expansões recebidas de forma dividida, como a Edge of Fate, e manter dois títulos live-service em simultâneo com uma equipe pressionada por cortes não é uma equação viável.
O problema é que a alternativa escolhida, Marathon, também não está performando como esperado. E é exatamente aí que a petição ganha relevância estratégica, ainda que informal: ela aponta para um vazio de produto que a empresa ainda não conseguiu preencher.
Cenários possíveis para o futuro da franquia
Olhando para o que está disponível publicamente, três caminhos parecem mais plausíveis para Destiny nos próximos anos.
O primeiro é o silêncio temporário. A Bungie concentra todos os esforços em estabilizar Marathon, tenta recuperar a base de jogadores com atualizações e ajustes, e só considera Destiny 3 se o extraction shooter se consolidar como fonte de receita. Nesse cenário, os fãs da franquia original aguardariam anos, possivelmente sem nenhuma notícia concreta.
O segundo caminho envolve uma mudança de curso forçada pelos números. Se Marathon continuar perdendo jogadores e a pressão da Sony por resultados aumentar, o estúdio pode ser obrigado a reconsiderar Destiny 3 como estratégia de recuperação comercial. A franquia tem um histórico de vendas e engajamento que Marathon ainda não conseguiu replicar, e isso é um ativo financeiro real.
O terceiro cenário, mais especulativo, passa por uma reestruturação mais profunda da Bungie dentro da estrutura da Sony. Com prejuízos de 765 milhões de dólares reconhecidos e demissões em andamento, a relação entre o estúdio e a PlayStation pode passar por mudanças na governança e na autonomia criativa, o que poderia abrir espaço para discussões sobre o portfólio de franquias de forma mais ampla.
O que os jogadores esperam de Destiny 3
Independentemente da viabilidade de curto prazo, vale entender o que a base de fãs busca numa eventual sequência. Ao longo dos anos, os jogadores de Destiny construíram um relacionamento profundo com o universo da franquia, com sua narrativa de ficção científica, seu sistema de builds e a experiência de jogar cooperativamente com amigos em raids e dungeon.
O primeiro Destiny foi lançado em 2014. Destiny 2 chegou em 2017. Quase uma década de conteúdo, expansões e atualizações deixou uma base de jogadores que conhece o universo a fundo e tem expectativas altas para uma continuação. A comunidade espera gráficos de nova geração com Unreal Engine ou motor proprietário atualizado, uma narrativa que aproveite o lore acumulado, melhorias no sistema de looter shooter e uma chegada sem os problemas técnicos que marcaram lançamentos anteriores.
Conclusão: o silêncio da Sony fala mais alto que qualquer comunicado
A Sony ainda não se pronunciou publicamente sobre a petição. Nenhum representante da Bungie ou da PlayStation comentou oficialmente a mobilização dos fãs ou sinalizou qualquer mudança de direção. O roadmap público do estúdio segue centrado em Destiny 2 até 9 de junho e no suporte contínuo a Marathon.
Mas os números não mentem. Uma petição por Destiny 3 com mais de 170 mil assinaturas que supera o pico de jogadores do substituto escolhido pela empresa é, no mínimo, um dado impossível de ignorar. Estúdios e publishers monitoram esse tipo de movimentação como indicadores de demanda latente, complementares às pesquisas internas de mercado.
O futuro de Destiny depende, acima de tudo, do desempenho de Marathon nas próximas semanas e meses. Se o jogo conseguir encontrar sua audiência e se estabilizar como um produto rentável, a Bungie terá o respaldo financeiro e a tranquilidade para, eventualmente, olhar para Destiny 3. Se Marathon continuar em queda, a pressão por uma alternativa vai aumentar, e a franquia original pode voltar à mesa de discussão mais cedo do que a empresa planeja.
A petição pode não mudar nada. Mas ela lembra, de forma muito objetiva, onde está a audiência que a Bungie construiu ao longo de doze anos.



