Bungie anuncia o fim de Destiny 2: o encerramento de uma era e o destino incerto de um estúdio lendário

Após quase 12 anos de franquia, Destiny 2 recebe sua última atualização em 9 de junho de 2026, enquanto a Bungie enfrenta demissões, prejuízos bilionários e um futuro ainda sem rumo definido.

Bungie anuncia o fim de Destiny 2

De Marathon ao Xbox: como a Bungie se tornou uma lenda

Para entender o peso do que está acontecendo agora, é preciso voltar ao começo. A Bungie foi fundada em 1991 por Alex Seropian e, durante grande parte dos anos 90, concentrou seus esforços em jogos para Macintosh, construindo uma reputação sólida com as franquias Marathon e Myth. Era um estúdio relativamente pequeno, mas com uma identidade criativa muito clara: mundos densos, narrativas abertas a interpretação e mecânicas que geravam discussões longas nas comunidades de jogadores.

Tudo mudou em 2000, quando a Microsoft adquiriu a Bungie e redirecionou um projeto ambicioso que o estúdio desenvolvia originalmente para PC e Macintosh. Aquele projeto se tornaria Halo: Combat Evolved, lançado em 2001 como título de estreia do Xbox original. O resultado foi histórico: Halo se transformou no sistema de âncora do console da Microsoft, vendendo milhões de cópias e reescrevendo as regras do shooter em consoles.

A parceria gerou sequências aclamadas, mas as tensões internas cresceram ao longo dos anos. Em 2007, após a conclusão de Halo 3, a Bungie negociou sua independência de volta. A Microsoft ficou com os direitos de Halo, que passou à 343 Industries, e a Bungie saiu para construir algo completamente novo. O IP pertencia ao passado; o futuro era uma folha em branco.

O nascimento de Destiny e a aposta no live-service

Em 2014, a Bungie lançou Destiny em parceria com a Activision. A proposta era ousada: um looter shooter com DNA de MMO, repleto de conteúdo pós-lançamento e uma estrutura de live-service que poucos estúdios haviam tentado nessa escala. A recepção inicial foi mista, mas a comunidade que se formou ao redor do jogo foi extraordinariamente fiel.

Em 2017, chegou Destiny 2, agora publicado diretamente pela Bungie após o fim do contrato com a Activision. O título cresceu, ganhou expansões memoráveis como The Forsaken e The Taken King e, em determinado ponto, era tratado pela Sony como referência em como conduzir um jogo como serviço de longo prazo. Esse prestígio foi, em grande parte, o que justificou a aquisição milionária que viria a seguir.

Bungie anuncia o fim de Destiny 2

Em 2022, a Sony adquiriu a Bungie por US$ 3,6 bilhões, num movimento que surpreendeu o mercado e foi anunciado dias após a Microsoft revelar sua intenção de comprar a Activision Blizzard. O CEO da Bungie, Pete Parsons, descreveu a parceria como uma oportunidade de escalar a visão do estúdio sem perder a independência criativa. A Sony prometeu exatamente isso, posicionando a Bungie ao lado dos PlayStation Studios sem forçar exclusividade.

A queda: demissões em série e uma conta que não fechava

O que se seguiu à aquisição foi uma das histórias mais dolorosas da indústria de games nos últimos anos. O modelo de live-service que havia funcionado tão bem durante a era de crescimento do Destiny 2 começou a mostrar suas fraturas.

Em outubro de 2023, a expansão Lightfall teve uma recepção decepcionante, e a receita do jogo ficou 45% abaixo das projeções para o ano. A Bungie respondeu com uma primeira rodada de demissões, cortando cerca de 100 funcionários, aproximadamente 8% do quadro. O CEO Parsons disse internamente que o estúdio havia mantido “as pessoas certas” para seguir em frente.

Em julho de 2024, veio uma segunda onda, ainda mais severa: 220 funcionários foram dispensados, representando 17% da força de trabalho. Outros 155 foram transferidos para a estrutura da Sony Interactive Entertainment. Isso ocorreu mesmo após The Final Shape, lançada em 2024, ter superado as projeções internas da própria empresa e sido recebida com críticas muito positivas. Para os funcionários, a contradição foi desconcertante. Guilhem Lagarde, técnico de suporte demitido naquele dia, descreveu a sensação como a de que a liderança “dizia uma coisa, mas por trás das cenas outra coisa estava acontecendo”.

Do pico de cerca de 1.600 funcionários em meados de 2023, a Bungie chegou ao final de 2024 com aproximadamente 850 pessoas. Uma redução de quase 50% em pouco mais de um ano.

Em agosto de 2025, Pete Parsons deixou o cargo de CEO após quase uma década à frente da empresa. Justin Truman assumiu a liderança de um estúdio significativamente menor e sob pressão crescente da Sony.

Os números que a Sony não conseguia esconder

Do ponto de vista financeiro, a história é ainda mais severa. A Sony registrou perdas por redução ao valor recuperável dos ativos da Bungie em duas parcelas: cerca de US$ 200 milhões no segundo trimestre de 2025, ligados ao desempenho de Destiny 2, e mais US$ 565 milhões no quarto trimestre do mesmo ano fiscal, após o lançamento de Marathon. No total, as desvalorizações acumuladas chegaram a aproximadamente US$ 765 milhões, fazendo com que a Sony reconhecesse formalmente que o ativo adquirido por 3,6 bilhões de dólares valia consideravelmente menos do que o preço pago.

Marathon: a aposta que não salvou o estúdio

O extraction shooter Marathon foi lançado em 2026 com a missão implícita de reposicionar a Bungie no mercado e justificar o investimento bilionário da Sony. O resultado foi aquém do esperado. Estimativas da Alinea Analytics apontam aproximadamente 1,2 milhão de cópias vendidas nas primeiras semanas, gerando em torno de US$ 55 milhões em receita antes das microtransações. Quase 70% das vendas vieram do PC, um número que expõe a dificuldade do título em engajar o público do PlayStation, plataforma da empresa que controla o estúdio.

O projeto Payback, desenvolvido internamente como possível sucessor espiritual de Destiny 2, foi cancelado silenciosamente. Destiny 3 não está em produção ativa, segundo reportagens recentes, contrariando rumores que circulavam desde novembro de 2025. O pipeline de projetos futuros da Bungie, no momento do encerramento de Destiny 2, está essencialmente vazio.

Bungie investe em Marathon

O fim de Destiny 2 e o que a última atualização representa

Em 21 de maio de 2026, a Bungie anunciou oficialmente que Destiny 2 receberá sua última atualização de conteúdo live-service em 9 de junho de 2026. A atualização, batizada de Monument of Triumph, foi descrita pelo estúdio como uma “coleção de cartas de amor” para os jogadores.

O conteúdo final trará de volta o Director clássico, um novo Pantheon permanente, o retorno da Sparrow Racing League, acesso a armas, armaduras e itens clássicos, além de pequenos arcos narrativos para colocar os personagens principais em “lugares interessantes”, conforme descreveu a empresa. A atualização será gratuita para todos os jogadores.

A Bungie garantiu que os servidores de Destiny 2 continuarão ativos no longo prazo, seguindo o mesmo modelo aplicado ao primeiro Destiny, que permanece acessível até hoje. A mensagem oficial do estúdio dizia: “Por quase doze anos, tivemos a alegria e a honra de explorar o universo de Destiny com todos vocês.”

O que levou ao fim natural, segundo a própria Bungie

No comunicado oficial, a empresa afirmou acreditar que chegou ao “fim natural” da jornada de Destiny 2 após a expansão The Final Shape, e que o universo da franquia precisa “continuar além das fronteiras do segundo jogo”. Essa linguagem cuidadosa sugere que a Bungie quer preservar a possibilidade de retornar ao universo de Destiny no futuro, sem comprometer-se com uma continuação imediata.

O futuro incerto da Bungie: três cenários possíveis

O anúncio do fim de Destiny 2 levanta uma pergunta direta: o que vem a seguir para a Bungie?

O cenário mais otimista é o de reconstrução focada em Marathon. O extraction shooter ainda tem uma base ativa de jogadores no PC, e a equipe de desenvolvimento continua investindo em novos conteúdos, com a Season 2 chamada Nightfall prevista para junho de 2026. Se Marathon conseguir encontrar um nicho estável e crescer organicamente, pode servir de base para que a Sony direcione novos recursos ao estúdio.

O cenário intermediário, e talvez o mais provável no curto prazo, é o de contração severa seguida de reestruturação. Com Destiny 2 encerrando o desenvolvimento ativo e nenhum novo projeto aprovado para a equipe herdeira, uma nova rodada de demissões significativas foi reportada como iminente. A Bungie passaria por um período de incubação com equipe reduzida, enquanto novos conceitos são desenvolvidos internamente para aprovação da Sony.

O cenário mais pessimista é o de dissolução parcial ou total. Considerando que a Sony já fechou estúdios como Bluepoint Games em 2026 sem que eles lançassem qualquer título first-party, e que as perdas acumuladas com a Bungie ultrapassam US$ 765 milhões, a pressão financeira é real. Se Marathon não encontrar tração e nenhum projeto novo for aprovado em breve, a Sony pode optar por absorver os talentos remanescentes em outras equipes internas e descontinuar a Bungie como entidade independente.

Trinta anos de história num horizonte nebuloso

Fundada em 1991, a Bungie passou por Microsoft, por independência, por Activision, por Sony. Criou Halo, que definiu uma geração de shooters. Criou Destiny, que moldou o que o mercado entende por live-service. E agora encerra o segundo capítulo dessa segunda franquia sem um terceiro capítulo em vista.

O legado está construído. As comunidades que Destiny 2 criou ao longo de quase doze anos continuarão existindo, e o jogo permanecerá acessível nos servidores. Mas a pergunta que os fãs e a indústria fazem agora não é sobre o passado. É sobre se um estúdio com essa história, nessa condição, conseguirá encontrar novamente a fórmula que o tornou relevante.

A última atualização de Destiny 2 chega em 9 de junho. Seja uma despedida ou uma pausa longa, poucos momentos na indústria de games de 2026 carregam tanto peso histórico quanto esse.


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