Samsung atinge marca histórica: processo de 4nm chega a mais de 80% de rendimento

A Samsung Foundry acaba de oficializar algo que o setor de semicondutores aguardava há bastante tempo. O processo de fabricação de chips SF4X, baseado em 4 nanômetros, cruzou a barreira dos 80% de rendimento e agora é classificado como “nó maduro” pela própria empresa.

Samsung - chip de 4nm

Isso significa que a linha de produção responsável por chips de inteligência artificial, como o LPU da Groq, opera com estabilidade comparável à de processos consolidados há anos no mercado.

O que significa atingir 80% de rendimento na fabricação de chips

Para quem acompanha tecnologia, mas não mergulha fundo no universo da fabricação de semicondutores, o conceito de “rendimento” pode parecer distante da realidade do dia a dia. Na prática, porém, ele é um dos fatores mais determinantes para o preço, a disponibilidade e a performance dos chips que chegam aos nossos dispositivos.

O rendimento representa a proporção de chips funcionais que saem de uma wafer (a lâmina de silício onde os circuitos são gravados). Se uma fábrica processa 1.000 chips em uma wafer e 820 deles funcionam corretamente, o rendimento é de 82%. Os 18% restantes são descartados, o que representa custo direto para o fabricante.

Em processos mais avançados e recentes, esse número tende a ser baixo no início justamente porque as margens de erro são ínfimas. Qualquer imperfeição mínima no processo de gravação, na limpeza da sala limpa ou na calibração dos equipamentos pode comprometer um chip inteiro. Por isso, a indústria considera que rendimentos entre 70% e 80% são o limiar para a produção em massa estável. Abaixo disso, o processo ainda está em fase de amadurecimento.

A Samsung cruzou esse limiar com o 4nm, e o impacto dessa notícia vai muito além de uma métrica técnica.

Por que esse marco importa para a Samsung agora

A trajetória da Samsung Foundry nos últimos anos foi marcada por desafios sérios de rendimento, especialmente nos nós mais avançados. Relatórios do setor indicavam que o processo de 3nm da empresa, baseado em tecnologia GAA (Gate-All-Around), operava com rendimentos próximos de 50% ainda em meados de 2025, um número preocupante para clientes que dependem de volume e previsibilidade na entrega.

Nesse contexto, a estabilização do processo de 4nm com rendimento superior a 80% representa uma virada estratégica concreta para a divisão de foundry. O nó de 4nm não é o mais avançado disponível, mas é extremamente relevante para o mercado de chips de inteligência artificial, onde a demanda por unidades de inferência cresceu de forma exponencial nos últimos dois anos.

A própria empresa redefiniu internamente o processo SF4X como um “nó maduro no pico do refinamento técnico”, sinalizando que ele deixou de ser tratado como tecnologia de desenvolvimento e passou a ser uma plataforma comercial de alta confiabilidade.

Além disso, a taxa de utilização das fábricas da Samsung Foundry superou 80% no primeiro trimestre de 2026, o nível mais alto em mais de um ano, o que indica que a recuperação da divisão é real e está ganhando tração com novos pedidos.

Quem está apostando no processo de 4nm da Samsung

O sinal mais concreto de que o mercado está reagendo a essa estabilização são os nomes que passaram a confiar sua produção à Samsung Foundry.

A Groq, recentemente adquirida pela Nvidia, já encomendou à Samsung a fabricação de seus Language Processing Units (LPUs) usando o processo de 4nm. Além dela, Ambarella, Baidu, Faraday e IBM também estão tendo chips fabricados nesse processo.

Os LPUs da Groq são peças de hardware especialmente projetadas para inferência em inteligência artificial, ou seja, para executar modelos de linguagem e outros sistemas de IA em tempo real com alta eficiência. Groq havia anunciado em 2023 a parceria com a Samsung Foundry para fabricar a segunda geração do LPU no processo de 4nm, e a terceira geração também foi confirmada para ser produzida na mesma linha.

Esse histórico de parceria, que agora se consolida com o amadurecimento do processo, é especialmente relevante porque a Groq é uma empresa apoiada pela Nvidia, o que confere ainda mais peso à escolha pela Samsung como parceira de fabricação.

Além dos clientes externos, a própria divisão de memória da Samsung está utilizando o processo de 4nm da Samsung Foundry para fabricar o “base die” dos chips HBM4, a memória de alta largura de banda de sexta geração lançada pela empresa. Essa sinergia entre as duas divisões internas fortalece ainda mais a relevância da linha de 4nm dentro da própria estratégia corporativa da Samsung.

Startups sul-coreanas de chips de IA, como FuriosaAI e Rebellions, também estão acelerando o desenvolvimento de produtos com base nesse processo, o que mostra como o ecossistema ao redor da plataforma SF4X está se expandindo rapidamente.

Samsung - chip de 4nm

O contexto da corrida de semicondutores: Samsung frente à TSMC

É impossível falar sobre a Samsung Foundry sem mencionar a TSMC, a fabricante taiwanesa que domina o mercado global de produção de chips por contrato. A rivalidade entre as duas empresas define, em grande parte, os rumos da indústria de semicondutores.

A TSMC mantém uma posição dominante no espaço de fabricação de semicondutores, em grande parte graças à sua tecnologia altamente avançada e aos seus consistentemente altos rendimentos de produção. Em contraste, a Samsung tem enfrentado desafios contínuos para igualar a eficiência da TSMC, especialmente na produção de chips avançados.

Porém, o amadurecimento do processo de 4nm muda parte dessa equação. Com rendimento acima de 80%, a Samsung oferece agora uma opção tecnicamente comparável para chips nesse nó, o que é relevante especialmente para clientes de IA que precisam de grande volume e previsibilidade.

Com o processo de 4nm entrando na fase de nó maduro, empresas globais de chips de inteligência artificial estão migrando para a linha de foundry da Samsung. Isso representa uma abertura real no mercado até então fortemente concentrado na TSMC.

Ainda assim, nos nós mais avançados, como o de 2nm, o quadro é diferente. Em setembro de 2025, a TSMC já apresentava rendimento em torno de 70% no processo de 2nm, enquanto a Samsung buscava aumentar seu rendimento de 2nm para 70% até o final de 2025. A batalha nos processos de ponta ainda está em aberto, mas a estabilização no 4nm mostra que a Samsung é capaz de evoluir e atingir maturidade quando foca seus esforços em uma plataforma específica.

O que isso representa para os jogos e para a tecnologia de consumo

Para quem acompanha tecnologia com foco em desempenho de hardware, esse avanço da Samsung tem implicações diretas, ainda que indiretas para o usuário final.

Chips fabricados com melhor rendimento chegam ao mercado com preços mais competitivos e em maior volume. Quando uma fábrica opera com 50% de rendimento, o custo de cada chip funcional é essencialmente o dobro do que seria com 100% de rendimento. Com 80%, essa equação melhora significativamente, tornando mais viável a produção de chips em escala para aplicações de IA, dispositivos móveis e hardware de jogos.

A Groq, por exemplo, utiliza seus LPUs para acelerar a inferência de modelos de linguagem de grande escala. Quanto mais chips de alta qualidade saírem das fábricas da Samsung, maior a capacidade de empresas como a Groq de expandir sua infraestrutura de IA, o que se traduz em serviços mais rápidos e acessíveis para desenvolvedores e usuários finais.

No contexto mobile, a estabilização do processo de 4nm também serve como base técnica para que a Samsung ganhe mais confiança no desenvolvimento do Exynos 2600, o processador de 2nm destinado à linha Galaxy S26. Revitalizar o Exynos é considerado essencial para melhorar a competitividade de custo no negócio de smartphones e diversificar a cadeia de fornecimento de chips para dispositivos móveis.

O que vem a seguir para a Samsung Foundry

Com o processo de 4nm consolidado como nó maduro, as atenções se voltam para os próximos passos da Samsung na corrida por processos mais avançados. A empresa está focada fortemente na tecnologia GAA de 2nm, com rendimentos que alcançavam entre 55% e 60% no final de 2025, e tem como meta a produção em massa do processo de 1,4nm até 2029.

O contrato com a Tesla para fabricação dos chips AI6, destinados ao sistema de direção autônoma Full Self-Driving e a centros de dados, também representa um ponto de virada importante para a divisão. A Samsung firmou um contrato de foundry com a Tesla no valor de 16,5 bilhões de dólares, marcando o maior acordo de longo prazo já assinado com um único cliente.

O caminho que a Samsung percorreu do 3nm problemático até o 4nm maduro é, antes de tudo, uma demonstração de que disciplina técnica e foco produzem resultados mensuráveis. O setor de semicondutores é implacável com quem não consegue converter tecnologia avançada em produção estável, e a Samsung acaba de provar que consegue fazer exatamente isso.

Para quem acompanha o mercado de chips, de jogos e de tecnologia em geral, esse não é apenas mais um número percentual. É um sinal de que o equilíbrio de forças na indústria de foundry está, finalmente, começando a se mover.


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